722
Um turbilhão de pensamentos começou a cruzar minha mente. O que quer dizer essa foto? Como ela foi parar em meus bolsos? Porque alguém resolvera trazer o meu passado à tona, justamente agora, depois de tanto tempo? Para todas essas perguntas, só me vinha uma pessoa em mente. O sujeito, coberto por um longo sobretudo bege, óculos e chapéu escondendo-lhe o rosto.
Um calafrio passou por mim, ao observar a foto uma última vez. Desenhada levemente à caneta vermelha, sobre a cabeça do meu eu – jovem, estava uma chama. Quem quer que tivesse feito isso, sabia mais sobre minha vida do que eu mesmo.
O elevador finalmente chegou ao seu andar de destino. Minhas mãos tremiam tentando encontrar o cartão magnético do hotel, a chave que dava acesso ao meu apartamento. Quando finalmente o achei, introduzi rapidamente na fechadura eletrônica, esperei o sinal da trava demonstrar uma luz verde, de acesso permitido, e entrei.
A ampla sala de estar estava escura, exceto pela fraca luz emanante de um abajur, em cima de uma mesa de canto, que fora deixado ligado. Sem pensar duas vezes, corri para o interfone fixo à parede próxima ao bar. Esbarrei com a perna em um dos bancos redondos enquanto tentava alcançá-lo. Ainda nervoso, tive que discar três tentativas até acertar o numero que dava contato com a portaria. A voz do outro lado da linha soava fraca e pausadamente.
— Boa noite, senhor, esqueceu de me perguntar alguma coisa? — O velho soava cansado, não satisfeito em ter pego o turno da noite. — Já estava prestes a pedir ao serviço de quarto por aqueles maços que pedira há pouco!
— Esqueça isso Jack, quero que me faça um favor, é urgente! — Eu transpirava enquanto falava, apesar da temperatura refrigerada do quarto.
— Você não parece muito bem, jovem, aconteceu alguma coisa?
— Escute, só vou lhe perguntar uma vez, temos que ser rápidos. — Meu coração batia forte de exaltação. Minha cabeça doía, enquanto tentava decidir o que fazer.
— Diga-me, Sr. Schnitter, farei tudo que estiver ao meu alcance. — Conseguia escutar a insegurança na voz do senhor de idade.
— Você se lembra do homem extravagante, acompanhado de todas aquelas lindas mulheres, que subiu comigo no elevador?
— Acho que me lembro, senhor, era um que estava usando, estranhamente, óculos de sol em pleno salão de visitas? Fazendo algazarras e cumprimentando as atendentes? — O velho fez um pausa. — O que tem ele?
— Jack, quero que você vá até o balcão de registros e descubra, de qualquer jeito, o numero do quarto em que esse homem está hospedado.
— Mas senhor... — Sua voz fraquejava. — Isso é contra qualquer regulamento do hotel, ainda que você seja um residente...
— JACK! — Gritei, desesperado. — Quantas vezes já não encobri suas bebedeiras, de madrugada? Não existe nenhum dono de hotel ou cliente que tenha lhe tratado melhor, ou dado tantas gorjetas quanto eu. Você me deve essa.
— S...sim senhor, tem razão. — Ele soava mais determinante. — Você é meu amigo, e nenhuma dessas grandes regras coorporativas vai me impedir de lhe fazer um favor. Vou até a recepção ver o que posso descobrir, provavelmente consigo saber de algo através dos funcionários do serviço de quarto também. Espere pela minha ligação.
Amigo. Essa palavra me pegou de surpresa. Mesmo naquele momento de ansiedade, a voz do velho Jack soava sincera. Imagino o que eu iria pensar se ouvisse isso, no período em que fugi, angustiado, do orfanato em que ninguém me aceitou. É irônico como eu nunca poderei retribuir nenhum afeto de amizade. Como poderia me relacionar, sabendo exatamente quando a pessoa iria deixar de estar do meu lado, para sempre? Não... não existe amizade para aqueles que enxergam a chama que se extingue.
Estava começando a me sentir melhor, enquanto esperava, ansioso, pela ligação do concierge. Meu corpo não mais transpirava, mas estava ficando frio, como de costume. Minha concentração foi aumentando, e eu pude me focar melhor na situação em que me encontrava. Suspeito: homem misterioso, de porte médio, trajando roupas de inverno (o que agora me parecia estranho, dada a alta temperatura) e óculos de sol. Objetivo: descobrir sua identidade, o que sabe sobre essa fotografia e sobre meu passado e suas verdadeiras intenções ao tentar entrar em contato comigo.
Os segundos pareciam horas enquanto aguardava , debruçado ao bar. Localizei uma Colt .45 em uma gaveta atrás do balcão. Verifiquei a munição e anexei o bico silenciador. Não que precisasse de armas de fogo, mas é um procedimento padrão para qualquer missão de captura. Enquanto prendia o coldre da pistola ao cinto, o interfone finalmente tocou.
— Ande Jack, fale. — Novamente, eu soava apressado. — Descobriu o quarto do sujeito?
— Sim, senhor. Ele está no 722. — Sua voz saía ofegante. — Desculpe-me a demora, mas ao contrario de sua tentativa de chamar a atenção, hoje mais cedo, o homem era muito discreto quanto as suas informações. Nem sequer pediu alguma coisa do serviço de quarto e negou a necessidade da limpeza das camareiras, assim que efetuou o check-in .
Não terminei de escutar o que o velho Jack dizia. Assim que descobri o numero, deixei o telefone caído sobre a bancada e me dirigi correndo para os elevadores. 722. Pensei, ansioso. Com o tempo, passei a aprender a controlar a raiva ou nervosismo de modo a trabalhar calculadamente. Naquela noite, entretanto, existia muita coisa em jogo, uma antiga vontade de descobrir sobre minha origem tomou conta de mim, e eu não poderia deixar essa oportunidade escapar, quem quer que fosse esse sujeito, eu iria capturá-lo.
Assim que as portas se abriram, entrei no elevador vazio e cliquei repetidamente no numero sete do painel. Observava os andares decaírem lentamente, ansioso. Décimo andar... nono andar... oitavo andar. Para minha infelicidade, o elevador parou, abrindo as portas para um jovem casal, ambos sorridentes, provavelmente aproveitando a lua-de-mel. Impaciente, neguei a passagem aos dois, mostrando-lhes um documento que retirei dos bolsos.
— Sou responsável pela segurança desse hotel. — O cartão demonstrava meu nome e continha uma foto, do meu rosto, alguns anos mais jovem, confirmando a identificação. — Peço que peguem o próximo elevador, obrigado.
O casal se entreolhou, nervoso, e pediu desculpas, se retirando, enquanto as portas se fechavam. Eu pouco prestava atenção nisso, só me concentrava no que fazer, quando chegasse no próximo andar.
Saí correndo em direção ao setingentésimo vigésimo segundo quarto no momento em que as portas tornaram a se abrir. Passei rapidamente pelo amplo corredor, sua iluminação era baixa, suas paredes coloridas em um amarelo claro, contrastando com o tapete vermelho-berrante. Diminuí a velocidade a medida que me aproximava da porta... 720... 721... 722. Parei, me posicionando de lado, encostando meus ouvidos em sua lateral, para tentar escutar qualquer sinal de atividade dentro do quarto.
O som era claro até demais. Do lado de fora, era possível escutar uma espécie de briga. Gritos, de vozes femininas, ecoavam em um idioma que não conseguia entender. Parece uma discussão. Esperei por um momento, antes de decidir o que fazer em seguida.
Não vou me segurar, não agora. Me posicionei em frente a porta, chutando-a com toda minha força. Senti a tensão da superfície de madeira em meus calcanhares, esta se abriu com um estardalhaço. O que vi em seguida, entretanto, não era o que esperava.
O quarto estava com suas luzes apagadas, e as mulheres continuavam a discutir. Alcancei o interruptor, iluminando-as. Elas nem perceberam a porta sendo arrombada, sequer pareciam ter ciência de que eu estava ali. A cena era perturbadora: moças lindas, seminuas, trajando apenas suas lingeries de grife, berravam umas com as outras, em uma língua que me lembrava russo. Davam-se tapas, arranhões, pontapés e puxões de cabelo. A situação poderia ser confundida com uma briga feminina normal, se não fosse pelo fato delas não pararem de conflitar. As agressões davam origem a cortes e hematomas em suas peles, antes, muito bem cuidadas, os puxões de cabelo eram fortes, e quase rasgavam-lhe os couros cabeludos. Suas expressões eram sem vida, encaravam umas as outras como se fossem guiadas por extinto. Eram como... animais.
Desviei meu olhar, conduzindo-o pelo o resto do quarto. Não eram as modelos, mas sim, seu acompanhante, que me importava. Não havia ninguém, procurei nos armários, dentro do espaçoso banheiro, nada. Cheguei tarde demais e o sujeito já havia fugido. Esteve do meu lado, teve a audácia de colocar uma foto em meu bolso, e escapou dentre meus dedos. Cerrei meus punhos com força enquanto me dirigia pelo corredor, deixando o cenário de caos e o som da gritaria se esvaecer atrás de mim.
Localizei um interfone no corredor e tornei a ligar para o meu amigo, o velho concierge do hotel.
— Jack, ele não estava no quarto... — Eu falava, tentando me manter calmo. — Você notou algum movimento aí embaixo?
— Aqui não é o Jack. — A voz tinha uma entonação nasal e sua pronuncia soava errônea. Era Wan Ning, o zelador. — Ele se retirou há uns minutos atrás e não falou com ninguém, mas eu assumi.
— Ning... aqui é John Schnitter. — Disse, perdendo as esperanças. — Parece que temos uma situação no quarto de numero 702, mande alguém pra lá imediatamente.
— Sim, Sr. Schnitter, mas...
— E, Ning. — Interrompi, seja lá o que ele quisesse dizer. — Não importa o que elas façam, quero que estejam sob apreensão da segurança do hotel. Está claro?
O senhor oriental provavelmente falou alguma coisa, mas eu já havia recolocado o interfone no gancho e seguido em direção aos elevadores.
Deslizei o regulador de iluminação do quarto. Pouco a pouco, a luz fraca foi delineando, a minha frente, uma grande mesa e cantoneiras, caríssimas, de mogno, com entalhos florais. Nas paredes, prendiam-se impressões de cartazes antigos, com anúncios dos melhores charutos e bebidas, emoldurados no mesmo estilo do resto dos móveis. Próximo a entrada, um bar semicircular revelava uma coleção impressionante de bebidas, me dirigi para parte de trás do balcão, onde desmontei e coloquei minha pistola em sua respectiva gaveta, próxima ao climatizador de vinhos.
Abri um Single Barrel de Jack Daniel’s e lembrei-me do senhor que sempre me cumprimentara por trás do balcão, desde que me mudei para o hotel. Me perguntava onde ele poderia ter ido, quando sabia que poderia receber noticias minhas a qualquer momento.
Apos pegar uma dose de whisky, contornei o bar, em direção a ampla sala de estar. Aquele quarto descomunal não era meu, mas já fazia alguns anos que eu a chamava de lar. Quando alguém trabalha com o que eu faço, com os clientes que tenho, esse se torna o menor dos privilégios.
Repousei o copo sobre a mesa de centro e me sentei no confortável sofá, estofado com um tecido fino, da cor vinho. Estava cansado, o dia tinha sido longo e exaustivo. Muita informação, de uma vez só. Pensei, bebendo um gole de whisky.

