Capítulo 3-1

722

Sou eu... tenho certeza. Esse aqui sou eu. O tempo parecia ter congelado. Não consigo me lembrar o quanto fiquei encarando aquela foto. O menino não era muito mais velho do que o de minhas lembranças em Westshire, aos doze anos. A casa, localizada no meio do “nada”, tinha uma aparência muito antiga, não conseguia enxergar direito quem, mas havia uma pessoa debruçada sobre o parapeito da janela. Parecia uma mulher, que observava de longe, o menino se divertir.

Um turbilhão de pensamentos começou a cruzar minha mente. O que quer dizer essa foto? Como ela foi parar em meus bolsos? Porque alguém resolvera trazer o meu passado à tona, justamente agora, depois de tanto tempo? Para todas essas perguntas, só me vinha uma pessoa em mente. O sujeito, coberto por um longo sobretudo bege, óculos e chapéu escondendo-lhe o rosto.

Um calafrio passou por mim, ao observar a foto uma última vez. Desenhada levemente à caneta vermelha, sobre a cabeça do meu eu – jovem, estava uma chama. Quem quer que tivesse feito isso, sabia mais sobre minha vida do que eu mesmo.

O elevador finalmente chegou ao seu andar de destino. Minhas mãos tremiam tentando encontrar o cartão magnético do hotel, a chave que dava acesso ao meu apartamento. Quando finalmente o achei, introduzi rapidamente na fechadura eletrônica, esperei o sinal da trava demonstrar uma luz verde, de acesso permitido, e entrei.

A ampla sala de estar estava escura, exceto pela fraca luz emanante de um abajur, em cima de uma mesa de canto, que fora deixado ligado. Sem pensar duas vezes, corri para o interfone fixo à parede próxima ao bar. Esbarrei com a perna em um dos bancos redondos enquanto tentava alcançá-lo. Ainda nervoso, tive que discar três tentativas até acertar o numero que dava contato com a portaria. A voz do outro lado da linha soava fraca e pausadamente.

— Boa noite, senhor, esqueceu de me perguntar alguma coisa? — O velho soava cansado, não satisfeito em ter pego o turno da noite. — Já estava prestes a pedir ao serviço de quarto por aqueles maços que pedira há pouco!

— Esqueça isso Jack, quero que me faça um favor, é urgente! — Eu transpirava enquanto falava, apesar da temperatura refrigerada do quarto.

— Você não parece muito bem, jovem, aconteceu alguma coisa?

— Escute, só vou lhe perguntar uma vez, temos que ser rápidos. — Meu coração batia forte de exaltação. Minha cabeça doía, enquanto tentava decidir o que fazer.

— Diga-me, Sr. Schnitter, farei tudo que estiver ao meu alcance. — Conseguia escutar a insegurança na voz do senhor de idade.

— Você se lembra do homem extravagante, acompanhado de todas aquelas lindas mulheres, que subiu comigo no elevador?

— Acho que me lembro, senhor, era um que estava usando, estranhamente, óculos de sol em pleno salão de visitas? Fazendo algazarras e cumprimentando as atendentes? — O velho fez um pausa. — O que tem ele?

— Jack, quero que você vá até o balcão de registros e descubra, de qualquer jeito, o numero do quarto em que esse homem está hospedado.

— Mas senhor... — Sua voz fraquejava. — Isso é contra qualquer regulamento do hotel, ainda que você seja um residente...

— JACK! — Gritei, desesperado. — Quantas vezes já não encobri suas bebedeiras, de madrugada? Não existe nenhum dono de hotel ou cliente que tenha lhe tratado melhor, ou dado tantas gorjetas quanto eu. Você me deve essa.

— S...sim senhor, tem razão. — Ele soava mais determinante. — Você é meu amigo, e nenhuma dessas grandes regras coorporativas vai me impedir de lhe fazer um favor. Vou até a recepção ver o que posso descobrir, provavelmente consigo saber de algo através dos funcionários do serviço de quarto também. Espere pela minha ligação.

Amigo. Essa palavra me pegou de surpresa. Mesmo naquele momento de ansiedade, a voz do velho Jack soava sincera. Imagino o que eu iria pensar se ouvisse isso, no período em que fugi, angustiado, do orfanato em que ninguém me aceitou. É irônico como eu nunca poderei retribuir nenhum afeto de amizade. Como poderia me relacionar, sabendo exatamente quando a pessoa iria deixar de estar do meu lado, para sempre? Não... não existe amizade para aqueles que enxergam a chama que se extingue.

Estava começando a me sentir melhor, enquanto esperava, ansioso, pela ligação do concierge. Meu corpo não mais transpirava, mas estava ficando frio, como de costume. Minha concentração foi aumentando, e eu pude me focar melhor na situação em que me encontrava. Suspeito: homem misterioso, de porte médio, trajando roupas de inverno (o que agora me parecia estranho, dada a alta temperatura) e óculos de sol. Objetivo: descobrir sua identidade, o que sabe sobre essa fotografia e sobre meu passado e suas verdadeiras intenções ao tentar entrar em contato comigo.


Os segundos pareciam horas enquanto aguardava , debruçado ao bar. Localizei uma Colt .45 em uma gaveta atrás do balcão. Verifiquei a munição e anexei o bico silenciador. Não que precisasse de armas de fogo, mas é um procedimento padrão para qualquer missão de captura. Enquanto prendia o coldre da pistola ao cinto, o interfone finalmente tocou.

— Ande Jack, fale. — Novamente, eu soava apressado. — Descobriu o quarto do sujeito?

— Sim, senhor. Ele está no 722. — Sua voz saía ofegante. — Desculpe-me a demora, mas ao contrario de sua tentativa de chamar a atenção, hoje mais cedo, o homem era muito discreto quanto as suas informações. Nem sequer pediu alguma coisa do serviço de quarto e negou a necessidade da limpeza das camareiras, assim que efetuou o check-in .

Não terminei de escutar o que o velho Jack dizia. Assim que descobri o numero, deixei o telefone caído sobre a bancada e me dirigi correndo para os elevadores. 722. Pensei, ansioso. Com o tempo, passei a aprender a controlar a raiva ou nervosismo de modo a trabalhar calculadamente. Naquela noite, entretanto, existia muita coisa em jogo, uma antiga vontade de descobrir sobre minha origem tomou conta de mim, e eu não poderia deixar essa oportunidade escapar, quem quer que fosse esse sujeito, eu iria capturá-lo.

Assim que as portas se abriram, entrei no elevador vazio e cliquei repetidamente no numero sete do painel. Observava os andares decaírem lentamente, ansioso. Décimo andar... nono andar... oitavo andar. Para minha infelicidade, o elevador parou, abrindo as portas para um jovem casal, ambos sorridentes, provavelmente aproveitando a lua-de-mel. Impaciente, neguei a passagem aos dois, mostrando-lhes um documento que retirei dos bolsos.

— Sou responsável pela segurança desse hotel. — O cartão demonstrava meu nome e continha uma foto, do meu rosto, alguns anos mais jovem, confirmando a identificação. — Peço que peguem o próximo elevador, obrigado.

O casal se entreolhou, nervoso, e pediu desculpas, se retirando, enquanto as portas se fechavam. Eu pouco prestava atenção nisso, só me concentrava no que fazer, quando chegasse no próximo andar.

Saí correndo em direção ao setingentésimo vigésimo segundo quarto no momento em que as portas tornaram a se abrir. Passei rapidamente pelo amplo corredor, sua iluminação era baixa, suas paredes coloridas em um amarelo claro, contrastando com o tapete vermelho-berrante. Diminuí a velocidade a medida que me aproximava da porta... 720... 721... 722. Parei, me posicionando de lado, encostando meus ouvidos em sua lateral, para tentar escutar qualquer sinal de atividade dentro do quarto.

O som era claro até demais. Do lado de fora, era possível escutar uma espécie de briga. Gritos, de vozes femininas, ecoavam em um idioma que não conseguia entender. Parece uma discussão. Esperei por um momento, antes de decidir o que fazer em seguida.

Não vou me segurar, não agora. Me posicionei em frente a porta, chutando-a com toda minha força. Senti a tensão da superfície de madeira em meus calcanhares, esta se abriu com um estardalhaço. O que vi em seguida, entretanto, não era o que esperava.

O quarto estava com suas luzes apagadas, e as mulheres continuavam a discutir. Alcancei o interruptor, iluminando-as. Elas nem perceberam a porta sendo arrombada, sequer pareciam ter ciência de que eu estava ali. A cena era perturbadora: moças lindas, seminuas, trajando apenas suas lingeries de grife, berravam umas com as outras, em uma língua que me lembrava russo. Davam-se tapas, arranhões, pontapés e puxões de cabelo. A situação poderia ser confundida com uma briga feminina normal, se não fosse pelo fato delas não pararem de conflitar. As agressões davam origem a cortes e hematomas em suas peles, antes, muito bem cuidadas, os puxões de cabelo eram fortes, e quase rasgavam-lhe os couros cabeludos. Suas expressões eram sem vida, encaravam umas as outras como se fossem guiadas por extinto. Eram como... animais.

Desviei meu olhar, conduzindo-o pelo o resto do quarto. Não eram as modelos, mas sim, seu acompanhante, que me importava. Não havia ninguém, procurei nos armários, dentro do espaçoso banheiro, nada. Cheguei tarde demais e o sujeito já havia fugido. Esteve do meu lado, teve a audácia de colocar uma foto em meu bolso, e escapou dentre meus dedos. Cerrei meus punhos com força enquanto me dirigia pelo corredor, deixando o cenário de caos e o som da gritaria se esvaecer atrás de mim.

Localizei um interfone no corredor e tornei a ligar para o meu amigo, o velho concierge do hotel.

— Jack, ele não estava no quarto... — Eu falava, tentando me manter calmo. — Você notou algum movimento aí embaixo?

— Aqui não é o Jack. — A voz tinha uma entonação nasal e sua pronuncia soava errônea. Era Wan Ning, o zelador. — Ele se retirou há uns minutos atrás e não falou com ninguém, mas eu assumi.

— Ning... aqui é John Schnitter. — Disse, perdendo as esperanças. — Parece que temos uma situação no quarto de numero 702, mande alguém pra lá imediatamente.

— Sim, Sr. Schnitter, mas...

— E, Ning. — Interrompi, seja lá o que ele quisesse dizer. — Não importa o que elas façam, quero que estejam sob apreensão da segurança do hotel. Está claro?

O senhor oriental provavelmente falou alguma coisa, mas eu já havia recolocado o interfone no gancho e seguido em direção aos elevadores.


Deslizei o regulador de iluminação do quarto. Pouco a pouco, a luz fraca foi delineando, a minha frente, uma grande mesa e cantoneiras, caríssimas, de mogno, com entalhos florais. Nas paredes, prendiam-se impressões de cartazes antigos, com anúncios dos melhores charutos e bebidas, emoldurados no mesmo estilo do resto dos móveis. Próximo a entrada, um bar semicircular revelava uma coleção impressionante de bebidas, me dirigi para parte de trás do balcão, onde desmontei e coloquei minha pistola em sua respectiva gaveta, próxima ao climatizador de vinhos.

Abri um Single Barrel de Jack Daniel’s e lembrei-me do senhor que sempre me cumprimentara por trás do balcão, desde que me mudei para o hotel. Me perguntava onde ele poderia ter ido, quando sabia que poderia receber noticias minhas a qualquer momento.

Apos pegar uma dose de whisky, contornei o bar, em direção a ampla sala de estar. Aquele quarto descomunal não era meu, mas já fazia alguns anos que eu a chamava de lar. Quando alguém trabalha com o que eu faço, com os clientes que tenho, esse se torna o menor dos privilégios.

Repousei o copo sobre a mesa de centro e me sentei no confortável sofá, estofado com um tecido fino, da cor vinho. Estava cansado, o dia tinha sido longo e exaustivo. Muita informação, de uma vez só. Pensei, bebendo um gole de whisky.

Capítulo 2-2

Infância


Terminei de fumar meu cigarro enquanto olhava o corpo do pobre psicólogo, encolhido no chão. Caída ao seu lado, estava a prancheta de anotações, que ele tanto olhava durante a consulta. Virei meu pescoço de modo a conseguir ler o que estava escrito. Haviam diversos rascunhos com contas matemáticas, pequenos desenhos, modelos de jogos de cartas e horários de funcionamento de cassinos. No topo da página lia-se:



Sistema de contagem Knock-Out

2,3,4,5,6 e 7: +1 na contagem

8,9: 0

10, Valete, Dama, Rei e Às: -1


Sistema KO? Pensei. Dentre os sistemas de contagem do Black Jack, o Knock-Out pode ser considerado o mais fácil de usar. Esse método de “trapacear” no jogo depende de extrema concentração e raciocínios aritméticos rápidos, o que pode ser difícil para certas pessoas, especialmente psicólogos de setenta anos, procurando por uma última aventura.

Segundo tinha lido mais cedo, em meu celular, Frederick Weis foi um dos pioneiros em contagem de cartas dos Estados Unidos. O método foi criado em 1962, pelo Ph. D. em matemática e professor universitário, Edward O. Thorp, e utilizava a técnica de “cinco contagens”, que foi substituída pela de “dez contagens”. Weis já às usava nos meados de 1970, faturando uma considerável barganha, antes de ser banido da maioria dos hotéis-cassino da cidade. Voltando a atuar, para sua infelicidade, há pouco mais de uma semana.

— Me mandaram atrás de um veterano. — Disse baixinho, enquanto depositava a guimba de cigarro em um cinzeiro de pedra, em cima da cantoneira, próxima a cadeira onde antes se sentava o senhor de idade. Antes de sair, reparei em uma última frase, escrita no final da primeira folha presa à prancheta.


Paciente John Schnitter: completamente insano, um idiota.


Soltei um riso abafado. As pessoas não prestam.

Ajeitei a gola de minha camisa e saí do consultório. A sala de espera estava ainda mais quente. Repugnantes papéis de parede verde-musgo me chamaram a atenção, estavam parte mofados, parte descolando das paredes. O piso de madeira era velho e rangia a medida que dava passos. Atrás do balcão estava uma jovem atendente, com cabelos encaracolados e um problema sério de acne. Ela me seguia com os olhos enquanto eu atravessava o lugar, sua expressão era de desdém, como qualquer adolescente irresponsável que trabalhava contra a vontade.

Eu olhava para os poucos clientes sentados no sofá, cujas almofadas estavam desbotadas, com um tom vinho-cinzento, em que antes deveria ser vermelho. Cumprimentei uma senhora, de cabelos tingidos e um chapéu rosa berrante, ao sair.

Já dentro do elevador, fiquei me perguntando quanto tempo levaria até a chamada do próximo cliente. Imaginava os gritos de horror da pobre jovem, ao ver o cadáver do idoso, estirado no chão. A cena me era engraçada.


O dia estava escurecendo enquanto eu passava pela movimentada avenida. A cidade estava cheia de turistas nessa época do ano, limusines cruzavam as ruas a cada poucos carros que passavam, anúncios de espetáculos e shows com nomes importantes, como Celine Dion, Elton John ou Cher bombardeavam os olhares. Passei por imigrantes, batendo cartões, com anúncios de prostituição. Uma tentativa de emprego na “terra da oportunidade” que chamavam de America.

Odiava sempre sentir frio, mas odiava ainda mais a cidade no verão. Eram raras as ocasiões que sentia calor, geralmente nas situações em que me encontrava e em uma posição desconfortável, ou na estação mais quente do ano, em uma cidade localizada em plena área desértica. Para alguém acostumado com o corpo gélido, a mudança brusca de temperatura me atingia com um baque. Sentia meu corpo mole, mal conseguia raciocinar, até mesmo enxergar a chama azul e ofuscante acima das milhares de pessoas caminhando, me causava tonturas.

Apertei os passos para chegar mais rápido em meus aposentos, tomando cuidado para não esbarrar em nenhum pedestre no caminho. Estava começando a cruzar a rua, quando meu celular começou a tocar. Com um fone de Bluetooth em meus ouvidos, cliquei para receber a ligação.

— Você esqueceu de me informar, cara. — Falou a voz do outro lado da linha. Sua pronúncia era rebuscada, mas eu já me acostumara com o seu sotaque indiano. — Cheguei até a deixar um recado na sua secretária eletrônica!

— Informar o que? Missão concluída? — Falei, com uma voz debochada. — Não sou nenhum agente britânico, Taz.

— O.K — Disse, tentando parecer sério. — Só pra confirmar... Frederick Weis está morto, certo?

— Sim, assim como você estará, em... alguns meses, eu acho.

— Ah... cara! Não brinque com isso! — Sua voz ficou assustada. — Não é sério, é? Quer dizer, da última vez que você me viu, disse que eu estava com todo o gás. Se eu morrer, a culpa é sua!

Não, era brincadeira mesmo, pode ficar tranqüilo. — Consegui escutar o seu suspiro de alivio, o que me fez rir. — Não é como se eu pudesse te “apagar” pelo telefone.

— Espero, mesmo, que não! Vou desligar agora, Schnitter. Tente descansar, o dia será longo amanhã. — O som do outro lado ficou mudo.

Iri Abishtek foi uma das primeiras pessoas que conheci no trabalho. Gênio da matemática e computação, usou de sua inteligência para ganhar a vida do jeito fácil: através do crime. Aos dezesseis anos já havia cometido delitos em mais de dez estados americanos, suas atuações variavam de invasão e clonagem de contas bancárias até falsos seqüestros, por telefone.

Como hacker, de codinome “Taz”, não existe nenhuma informação pessoal que ele não consiga acessar. Desde coisas simples, como endereços ou números de celular, à transações secretas de grandes quantias de dinheiro. Há pouco mais de cinco anos, o indiano foi finalmente preso , no Texas, refugiando-se em uma propriedade particular, em Austin. Taz havia conseguido acesso à todos os códigos de segurança da casa, onde fingiu ser o dono, que viajava a negócios, por aproximadamente um mês. Autoridades locais só o acharam por causa de suspeitas de vizinhos. Iri não é do tipo discreto, e organizava festas e eventos no local, freqüentemente.

Foi retirado da prisão, cobrindo menos de um terço da pena, quando a companhia para quem trabalho viu em seu talento uma oportunidade, e lhe ofereceu um emprego. Em um semestre prestando serviços, Taz acumulou mais dinheiro do que em anos de roubo. O que fazíamos, entretanto, era muito diferente de simples invasões de propriedade.


Já era noite quando cheguei em casa. Passei pelo lobby de entrada, parando somente para cumprimentar o velho Jack, atrás do balcão da portaria.

— Chegou algum pacote hoje, Daniel’s? — Um apelido digno dos apreciadores de um bom whisky, em horário de serviço.

— Nada por hoje, Sr. Walker. — O senhor de idade deixava transparecer um sorriso. Sentia pena ao ver o pequeno fogo tremeluzindo os poucos anos que lhe restavam.

— Obrigado, tenha uma boa noite. — Fiz uma pausa, como se estivesse esquecendo de algo. — Faça-me o favor de comunicar o serviço de quarto que me entregue mais maços de Lucky Strike, estou ficando sem.

— Pode deixar, senhor, considere-o feito!

— E... Jack. — Virei para ele, enquanto me dirigia aos elevadores. — Tome a liberdade de pegar uma das melhores garrafas da casa, na minha conta, é claro.

Uma cortesia para o tempo que lhe resta de vida. Pensei. O senhor de idade me agradeceu com uma expressão sincera.

Enquanto esperava a chegada do elevador, senti uma sensação estranha, como se ali, naquele imenso salão, houvesse alguém me observando. Corri os olhos por toda a extensão da área de repouso. Várias pessoas estavam sentadas em sofás confortáveis, lendo as noticias enquanto tomavam uma xícara café expresso. Algumas famílias, recém-chegadas ao hotel, faziam o check-in na recepção, onde atendentes carismáticas acertavam o pagamento e lhes indicavam as informações sobre a cidade e seus principais pontos turísticos.

Escutei o aviso de que o elevador chegara. Não pude deixar de notar o figurão parado no meio do lobby, chamando a atenção. Usava um chapéu bege, no estilo gangster, que combinava com seu sobretudo de marca caríssima. Usava grandes óculos escuros, cobrindo-lhe o rosto, apesar de estar de noite. A sua volta, várias mulheres lindas aglomeravam-se, o que dificultava visualizá-lo.

Ele seguia em minha direção, falando alto e rindo para as belas moças. Consideravelmente mais altas que ele, eu diria que eram modelos de algum pais da Europa. Tinham, em sua maioria, cabelos loiros, esvoaçantes, peles pálidas e corpos magérrimos, esculturais. O sujeito gritou para que segurasse o elevador, quando percebeu que já estava partindo.


Fiquei agradecido quando o magnata incômodo finalmente se retirou, dois andares antes. Olhava fixamente para o painel numérico, esperando que indicasse a chegada ao último andar. Foi então que senti um aperto no peito, uma imagem que demorei para perceber. Aquele homem... não possuía chama?

Devo estar cansado. Pensei. Não é possível, estou delirando, com o calor, com o trabalho, com tudo. Mas a dúvida percorria a minha cabeça, tentei visualizar a cena em minha mente. Lembro-me muito bem de ter visto cinco chamas flutuantes, um para cada mulher a sua volta, impedindo que eu o encarasse. Talvez uma delas estivesse bloqueando a minha visão.

Foi só quando desisti e fui procurar, em meus bolsos, as chaves do quarto, que apalpei algo não familiar. Segurei-o em minhas mãos, era um pedaço de papel dobrado, envelhecido. Confuso, sem saber como ele foi parar em meus bolsos, o desdobrei.

Era uma fotografia antiga, em tons de sépia, sem borda e com falhas esbranquiçadas, causadas pelo desgaste natural. Um garoto, de cabelos escuros, brincava sorridente com um desses carrinhos de brinquedo. Atrás dele estava uma grande colina, uma casa de aspecto rústico no topo e, mais adiante, uma extensa floresta de pinheiros. A paisagem me era estranhamente familiar.

Espere um pouco... esse sou eu.


Capítulo 2-1

Um Nome

Do alemão: monstro, aberração, desprezível. Ainda que não soubesse o significado da palavra, aos meus doze anos, sabia muito bem o que ela representava. Podia sentir o ódio da senhora germânica, seus olhos, vermelhos, me fulminando.


Unhold... por todos os anos que se seguiram, isso foi a coisa mais próxima que tive de um nome. Ao contrario do que esperava, sair da enfermaria só me deixou mais solitário. Ganhara um quarto só meu, sem companheiros para dividi-lo... ele pertencera ao pobre garoto japonês, Yoshida. Após a sua morte, ninguém mais queria dormir em seus aposentos.

Esqueci o número de vezes em que fingi estar doente, para receber qualquer atenção das enfermeiras. Talvez elas me deixassem ficar mais alguns dias sob seus cuidados, eu pensava. Depois que ganhei alta, entretanto, nunca mais adoeci. Os ferimentos se curaram perfeitamente, eu me sentia saudável, mas meu espírito infantil ainda chorava, buscando por alguém que pudesse me aceitar.

Todas as crianças tinham medo de mim, elas desviavam olhares ao me ver, algumas até choravam. O rumor de que estava possuído, amaldiçoado, correu pelos corredores do prédio. Até mesmo os adolescentes mais velhos evitavam se aproximar de mim.

Aos quatorze, comecei a tirar vantagem deste medo para proveito próprio. Ameaçava os menores, dizendo que coisas terríveis aconteceriam a eles. Em troca disso, recebia trocados e sobremesas dos mais assustados e diversas visitas à sala da Sra. Thompson por conta dos dedo-duros.

As refeições quentes não mais conseguiam esquentar meu corpo, que estava sempre congelante. Troquei o prazer da comida pelo do tabaco, uma tentativa de amenizar a sensação de frio. Já não sabia se esse era uma característica biológica ou um efeito psicológico causado pelos meus anos de isolamento.

A verdade é que as pessoas pareciam realmente ficar mais fracas ao tentar se aproximarem de mim. Havia tentado ignorar as chamas que flutuavam sobre suas cabeças, chegara a acreditar que era tudo fruto de minha imaginação, um defeito neurológico que havia adquirido apos o incidente que me dera a amnésia, mas não adiantava. Quanto mais lutava para esquecer minha habilidade, mais achava que estava destinado a possuí-la.


Finalmente, aos meus dezesseis anos, resolvi abandonar Westshire para sempre. Reuni o pouco de meus pertences. Guardei o tanto de dinheiro que havia acumulado com dois anos de extorsão e ameaças. Assaltei alguns bolinhos e biscoitos na dispensa da cozinha e separei um par de mudas de roupa que o orfanato recebia ocasionalmente por meio de doações.

Com poucas dezenas de dólares no bolso e uma mochila jeans esfarrapada, vesti um grosso casaco de inverno e segui para porta dos fundos do prédio principal. Era inverno, a paisagem estava encoberta de neve tal qual o meu primeiro dia. Para uma pessoa com poucas memórias, desde o momento em que cheguei ao orfanato até quando decidi fugir dele, parecia uma eternidade.

Eu passava pelos corredores tentando me manter discreto, o que não era difícil. Um grupo de garotas adolescentes pararam de fofocar para me lançarem olhares ríspidos enquanto passava por elas. Várias crianças entraram em seus quartos ao me ver, eu reconhecia suas expressões assustadas.

Amassei um anuncio de um albergue, em Hartford, quando afundei minhas mãos nos bolsos do casaco. A cidade era a poucas horas de viagem e o lugar tinha preços acessíveis que poderiam me manter lá por algumas noites, até conseguir achar um emprego. Acenei para a enfermeira gordinha e sorridente enquanto passava pelo quarto, em que me hospedei por quase uma estação. Esperava que ela me acenasse de volta carinhosamente, como quando cuidou de mim nas primeiras noites. Quem estou enganando, ela morria de medo de mim! Pensei, rindo comigo mesmo.

Foi só quando me esgueirava sorrateiramente pelo grande salão principal, seguindo para a porta dos fundos, que me dei conta de que estava sendo seguido.

— Pode ir parando aí, Sr. Unhold. — Eu poderia reconhecer seu sotaque arranhado e seus passos pesados a muitos metros de distancia.

— O que fiz de errado agora, Sra. Unhold? — Minha expressão era de deboche, sorrindo da própria piada. Eu virava para encará-la, seu corpo enorme e redondo seguindo em minha direção. Tinha o mesmo olhar frio que me lançava sempre, desde meus doze anos.

— O monstro aqui é você rapaz. — Disse, com um sorriso falso estampado no rosto. — Não pense que vou me dar o trabalho de impedir que você vá embora... estou aliviada que esse dia finalmente chegou. Só vim para lhe entregar isso, antes que suma da minha vida para sempre.

Olhei, com uma expressão de duvida, para o envelope de papel pardo que estava em suas mãos. Ela o estendeu para mim, também não parecendo entender como aquela correspondência havia chegado em Westshire.

— O recebi alguns dias atrás. — Ela disse, enquanto eu o segurava. — Não me pergunte o que é, está selado. Se fosse qualquer outra pessoa, eu me atreveria a abrir, mas como é de você que estamos falando...

Ela continuava a falar, mas meus olhos estavam voltados para o envelope de papel. Eu estava confuso, imaginando como aquilo havia sido endereçado a mim. Ele tinha um aspecto envelhecido, machas de tinta em grande parte do verso. Um selo de cera vermelha, com uma marca redonda, sem brasão, mantinha-o fechado.


De:

Para: Unhold?

Rua Fillmore, Orfanato Westshire, 80, Snow Halts.

Quarto 77-A, primeiro andar.


Rompi o selo, minhas mãos tremiam de ansiedade. Dentro do envelope só havia uma folha... meia folha, melhor dizendo. O pedaço de papel amarelado havia perdido parte de seu conteúdo para manchas de tinta e estava parcialmente queimado nas laterais. O que estava escrito, entretanto, era o suficiente para me deixar em choque.


CERTIFICADO DE NASCIMENTO

Este certifica que John Schnitter, sexo: masculino, nasceu para V r ni a T dore Schnitter e _______________Schnitter, em uma segunda- feira, às 2003 horas, no dia 25 de Dezembro de 1982.

Centro medico Spring Valley 5400. Rainbow Blvd. Las Vegas, NV 89118.


A tinta foi raspada com força onde deveriam aparecer o nome dos pais, quase rasgando a folha em alguns pontos. No verso, impressões de dois pezinhos estavam marcadas à tinta, em meio as manchas e o chamuscado do papel. Eu tremia enquanto lia a certidão, minha cabeça doía, como se tentasse se lembrar desesperadamente de algo. Meus pensamentos giravam, tentando entender porque esta correspondência fora enviada a mim.

Seria este... o meu nome? Pensei. John... John Schnitter. Minha cabeça latejava, meu corpo cambaleava, eu estava perdendo o equilibro. Sra. Thompson me encarava, curiosa, querendo saber o conteúdo da carta. Deixei-a escapulir da minha mão e me ajoelhei sobre o tapete, estava fraco.

— Certidão de Nascimento? — Disse a velha, pegando a folha do chão. — John Schnitter? Há! Essa é boa, você é Unhold e sempre será um unhold para este orfanato, rapaz.

É verdade. Pensei, me levantando. Enquanto ficar aqui, serei considerado uma aberração para sempre. Puxei minha certidão das mãos da mulher, guardei-a dentro do envelope e o enfiei em um dos bolsos da mochila. Estava decidido a partir e nunca mais tocar no nome Westshire ou na vida que tive enquanto morava lá.

Minhas mãos ainda estavam fracas quando forcei abrir as grandes portas da entrada principal. Fui atingido por um vento fresco, finos flocos de neve tocaram-me o rosto. Caminhei pelo frio enquanto cruzava o extenso jardim em direção aos portões.

Crianças moldavam seus corpos no gramado soterrado, criando formas que lembravam anjos, outras preparavam seu arsenal de bolinhas, para a guerra que aconteceria mais tarde. Todas pareciam muito felizes, aproveitando a chegada da época de natal.

Já estava bastante afastado das construções do orfanato. Um alivio correu pelo meu corpo, como se eu tivesse a chance de começar tudo outra vez. Foi quando encarei a grande lápide, com as palavras do fundador, localizada próxima a entrada.

— “...os transformamos em esperança”. — Soltei um riso abafado. — Até parece...

Pela primeira vez na vida, me senti livre.


Dez anos mais tarde, eu ainda apreciava a fumaça quente do cigarro. Sentado em um banco na calçada, eu admirava as luzes da cidade que nunca dorme enquanto tragava um Lucky Strike atrás do outro. Já estava ficando impaciente, esperando a resposta de meu informante.

Aguardei por alguns minutos, até que escutei o barulho de um bipe agudo, do meu celular, indicando que havia recebido uma mensagem. Na tela havia uma foto, um senhor de idade, com cabelos grisalhos e olhos verdes, por trás de óculos de armação quadrada. Alem da imagem, o arquivo continha informações detalhadas do sujeito, inclusive sua ficha de atuações irregulares em diversos cassinos da cidade.

Frederick Weis, psicólogo. Pelo que estava escrito, alem de escutar problemas pessoais durante horas, em seu consultório, o velho ainda tinha uma paixão por jogos de azar. Segundo registros de meu cliente, Frederick estaria contando cartas no jogo de Black Jack, acumulando pequenas riquezas às custas do cassino.

Irônico...

Enquanto olhava para a foto de meu próximo alvo, lembrava de outra pessoa com o mesmo nome. Frederick Westshire, fundador do lugar que jurei esquecer para sempre.