Prólogo

Realmente não gostaria de ter nascido nessas condições. Não sei o que é ser um humano normal, já que não tenho certeza se posso ser considerado um.

Desde cedo, aprendi que outras pessoas tinham o comportamento diferente do meu. Cresci com características especiais, mas achei que não estaria sozinho na sociedade, me enganei. Mesmo pequeno tinha uma visão do mundo diferente dos outros, então, sempre achei que essa era a realidade para todos, não poderia estar mais errado.

Lembro-me até hoje quando descobri que era diferente, quando passei a ser chamado de estranho, quando mudei completamente minha personalidade, negando todas as minhas características, para poder me enquadrar nos padrões normais da sociedade. Gostaria de ser considerado normal, mas nunca tive uma experiência parecida, eu... não posso me relacionar com pessoas.

Não é como se eu possuísse super-poderes ou enxergasse seres que outros não pudessem ver, minha habilidade, se posso chamá-la assim, é bem mais cruel, é injusto para alguém nascer com tal capacidade. O conceito é bem simples, pode ser considerado um exagero o jeito como demoro para tentar desferir poucas palavras:

— Eu...enxergo o tempo de vida das pessoas.

Minhas costas reclamavam por estarem deitadas naquele divã desconfortável. O estofado de couro que a principio parecia convidativo, aumentava ainda mais minha vontade de levantar e sair daquele minúsculo e mal iluminado consultório.

Mergulhado em meus pensamentos, demorei para poder dizer as poucas palavras ao psicólogo. Julgando pela reação do mesmo, não posso dizer se tive forças o suficiente para produzir o som necessário, ou se o profissional a poucos metros de mim estava distraído demais com sua caderneta.

Foi quando tentava reunir coragem para confessar novamente que o senhor, de cabelo grisalho e olhos cansados, endireitou a armação de seus óculos e me fitou por trás de sua prancheta, franzindo a testa.

— Desculpe-me jovem, acho que não escutei corretamente. — Seus profundos olhos verdes me diziam que ele tinha certeza do que escutara. — Você disse que... enxerga o tempo de vida das pessoas?

Comecei a sentir-me claustrofóbico dentro daquele espaço, o pequeno ventilador pouco ajudava a amenizar a sensação de calor. Já fazia muito tempo desde que confessei a primeira vez sobre esse meu... defeito, estava suando por baixo do terno que usava para trabalhar, não somente pela temperatura, mas pelo nervosismo.

— Sim, foi o que eu disse. — Gaguejei ao falar. — Eu sei que parece incomum mas...

— Conte-me mais a respeito dessa sua... visão. — Interrompeu o senhor. O tom em sua voz era típico dos profissionais da área, carregado de ceticismo, à procura de transtornos psicológicos e traumas do passado. — Como é, exatamente, que ela funciona?

— Eu já disse. — Respondi. A vontade de me retirar me impulsionando cada vez mais. — Eu enxergo o tempo que resta de uma pessoa, até ela morrer.

— Sim, é claro. — O psicólogo pigarreou. Enquanto a maioria das pessoas teria uma reação transparente, demonstrando aversão, aposto que o velho apenas se perguntava se estaria ganhando o suficiente para aquela consulta. — Eu entendi essa parte, mas, me conte como funciona, o que você enxerga, exatamente, em cada pessoa?

— Não é como se eu pudesse ver o tempo em números. — Respondi, desanimado. — Posso enxergar uma espécie... de chama, ela queima continuamente acima da cabeça de qualquer indivíduo.

— Isso é interessante, de fato. — Seu tom não demonstrava nenhum interesse. — E eu presumo que se essa chama se extingue, a vida da pessoa chega ao fim.

— Exatamente.

— E o que você pode dizer de mim? — O velho ergueu uma das sobrancelhas, o que aumentou ainda mais a sua cara de desdém. — Qual o estado de minha “chama” ?

— Bem, foi exatamente por isso que vim aqui. Já estava impaciente para acabar logo com isso, esse lugar não me agrada nem um pouco. — Levantei, mexi um pouco a cabeça para os lados, tentando dar um jeito em meu pescoço dolorido. Acendi um cigarro, o que causou um olhar de desaprovação no sujeito de idade, que agora parecia confuso. — Achei que não faria mal lhe dar uma última consulta, estava querendo desabafar, sabe?

— N...não estou entendendo bem.

— Não precisa, nada disso vai importar agora. — Dei uma tragada no cigarro enquanto observava a leve chama flutuar sobre os cabelos ralos do psicólogo, ela parecia estar prestes a se extinguir. Ergui meu braço direito no ar, minha mão aberta. O velho tentava dizer algo, mas sua voz já soava fraca. — Adeus.

Quando cerrei meu punho, o pequeno fogo apagou diante de meus olhos, senti um leve formigamento em minha mão, como era de costume, um pouco de fumaça escapava dentre meus dedos. No mesmo instante, o senhor sentiu uma dor aguda vinda do peito, seu corpo começou a ficar frio, ele caiu com um baque no chão encarpetado do consultório, ficando de joelhos.

Me pergunto se ele teria visto sua vida passar diante de seus olhos nesses poucos segundos que lhe restavam, porque ele ficou um bom tempo observando o vazio antes de finalmente desistir e tombar para o lado, deixando suas pálpebras cobrirem, lentamente, seus olhos verdes e sem vida.