Capítulo 2-1

Um Nome

Do alemão: monstro, aberração, desprezível. Ainda que não soubesse o significado da palavra, aos meus doze anos, sabia muito bem o que ela representava. Podia sentir o ódio da senhora germânica, seus olhos, vermelhos, me fulminando.


Unhold... por todos os anos que se seguiram, isso foi a coisa mais próxima que tive de um nome. Ao contrario do que esperava, sair da enfermaria só me deixou mais solitário. Ganhara um quarto só meu, sem companheiros para dividi-lo... ele pertencera ao pobre garoto japonês, Yoshida. Após a sua morte, ninguém mais queria dormir em seus aposentos.

Esqueci o número de vezes em que fingi estar doente, para receber qualquer atenção das enfermeiras. Talvez elas me deixassem ficar mais alguns dias sob seus cuidados, eu pensava. Depois que ganhei alta, entretanto, nunca mais adoeci. Os ferimentos se curaram perfeitamente, eu me sentia saudável, mas meu espírito infantil ainda chorava, buscando por alguém que pudesse me aceitar.

Todas as crianças tinham medo de mim, elas desviavam olhares ao me ver, algumas até choravam. O rumor de que estava possuído, amaldiçoado, correu pelos corredores do prédio. Até mesmo os adolescentes mais velhos evitavam se aproximar de mim.

Aos quatorze, comecei a tirar vantagem deste medo para proveito próprio. Ameaçava os menores, dizendo que coisas terríveis aconteceriam a eles. Em troca disso, recebia trocados e sobremesas dos mais assustados e diversas visitas à sala da Sra. Thompson por conta dos dedo-duros.

As refeições quentes não mais conseguiam esquentar meu corpo, que estava sempre congelante. Troquei o prazer da comida pelo do tabaco, uma tentativa de amenizar a sensação de frio. Já não sabia se esse era uma característica biológica ou um efeito psicológico causado pelos meus anos de isolamento.

A verdade é que as pessoas pareciam realmente ficar mais fracas ao tentar se aproximarem de mim. Havia tentado ignorar as chamas que flutuavam sobre suas cabeças, chegara a acreditar que era tudo fruto de minha imaginação, um defeito neurológico que havia adquirido apos o incidente que me dera a amnésia, mas não adiantava. Quanto mais lutava para esquecer minha habilidade, mais achava que estava destinado a possuí-la.


Finalmente, aos meus dezesseis anos, resolvi abandonar Westshire para sempre. Reuni o pouco de meus pertences. Guardei o tanto de dinheiro que havia acumulado com dois anos de extorsão e ameaças. Assaltei alguns bolinhos e biscoitos na dispensa da cozinha e separei um par de mudas de roupa que o orfanato recebia ocasionalmente por meio de doações.

Com poucas dezenas de dólares no bolso e uma mochila jeans esfarrapada, vesti um grosso casaco de inverno e segui para porta dos fundos do prédio principal. Era inverno, a paisagem estava encoberta de neve tal qual o meu primeiro dia. Para uma pessoa com poucas memórias, desde o momento em que cheguei ao orfanato até quando decidi fugir dele, parecia uma eternidade.

Eu passava pelos corredores tentando me manter discreto, o que não era difícil. Um grupo de garotas adolescentes pararam de fofocar para me lançarem olhares ríspidos enquanto passava por elas. Várias crianças entraram em seus quartos ao me ver, eu reconhecia suas expressões assustadas.

Amassei um anuncio de um albergue, em Hartford, quando afundei minhas mãos nos bolsos do casaco. A cidade era a poucas horas de viagem e o lugar tinha preços acessíveis que poderiam me manter lá por algumas noites, até conseguir achar um emprego. Acenei para a enfermeira gordinha e sorridente enquanto passava pelo quarto, em que me hospedei por quase uma estação. Esperava que ela me acenasse de volta carinhosamente, como quando cuidou de mim nas primeiras noites. Quem estou enganando, ela morria de medo de mim! Pensei, rindo comigo mesmo.

Foi só quando me esgueirava sorrateiramente pelo grande salão principal, seguindo para a porta dos fundos, que me dei conta de que estava sendo seguido.

— Pode ir parando aí, Sr. Unhold. — Eu poderia reconhecer seu sotaque arranhado e seus passos pesados a muitos metros de distancia.

— O que fiz de errado agora, Sra. Unhold? — Minha expressão era de deboche, sorrindo da própria piada. Eu virava para encará-la, seu corpo enorme e redondo seguindo em minha direção. Tinha o mesmo olhar frio que me lançava sempre, desde meus doze anos.

— O monstro aqui é você rapaz. — Disse, com um sorriso falso estampado no rosto. — Não pense que vou me dar o trabalho de impedir que você vá embora... estou aliviada que esse dia finalmente chegou. Só vim para lhe entregar isso, antes que suma da minha vida para sempre.

Olhei, com uma expressão de duvida, para o envelope de papel pardo que estava em suas mãos. Ela o estendeu para mim, também não parecendo entender como aquela correspondência havia chegado em Westshire.

— O recebi alguns dias atrás. — Ela disse, enquanto eu o segurava. — Não me pergunte o que é, está selado. Se fosse qualquer outra pessoa, eu me atreveria a abrir, mas como é de você que estamos falando...

Ela continuava a falar, mas meus olhos estavam voltados para o envelope de papel. Eu estava confuso, imaginando como aquilo havia sido endereçado a mim. Ele tinha um aspecto envelhecido, machas de tinta em grande parte do verso. Um selo de cera vermelha, com uma marca redonda, sem brasão, mantinha-o fechado.


De:

Para: Unhold?

Rua Fillmore, Orfanato Westshire, 80, Snow Halts.

Quarto 77-A, primeiro andar.


Rompi o selo, minhas mãos tremiam de ansiedade. Dentro do envelope só havia uma folha... meia folha, melhor dizendo. O pedaço de papel amarelado havia perdido parte de seu conteúdo para manchas de tinta e estava parcialmente queimado nas laterais. O que estava escrito, entretanto, era o suficiente para me deixar em choque.


CERTIFICADO DE NASCIMENTO

Este certifica que John Schnitter, sexo: masculino, nasceu para V r ni a T dore Schnitter e _______________Schnitter, em uma segunda- feira, às 2003 horas, no dia 25 de Dezembro de 1982.

Centro medico Spring Valley 5400. Rainbow Blvd. Las Vegas, NV 89118.


A tinta foi raspada com força onde deveriam aparecer o nome dos pais, quase rasgando a folha em alguns pontos. No verso, impressões de dois pezinhos estavam marcadas à tinta, em meio as manchas e o chamuscado do papel. Eu tremia enquanto lia a certidão, minha cabeça doía, como se tentasse se lembrar desesperadamente de algo. Meus pensamentos giravam, tentando entender porque esta correspondência fora enviada a mim.

Seria este... o meu nome? Pensei. John... John Schnitter. Minha cabeça latejava, meu corpo cambaleava, eu estava perdendo o equilibro. Sra. Thompson me encarava, curiosa, querendo saber o conteúdo da carta. Deixei-a escapulir da minha mão e me ajoelhei sobre o tapete, estava fraco.

— Certidão de Nascimento? — Disse a velha, pegando a folha do chão. — John Schnitter? Há! Essa é boa, você é Unhold e sempre será um unhold para este orfanato, rapaz.

É verdade. Pensei, me levantando. Enquanto ficar aqui, serei considerado uma aberração para sempre. Puxei minha certidão das mãos da mulher, guardei-a dentro do envelope e o enfiei em um dos bolsos da mochila. Estava decidido a partir e nunca mais tocar no nome Westshire ou na vida que tive enquanto morava lá.

Minhas mãos ainda estavam fracas quando forcei abrir as grandes portas da entrada principal. Fui atingido por um vento fresco, finos flocos de neve tocaram-me o rosto. Caminhei pelo frio enquanto cruzava o extenso jardim em direção aos portões.

Crianças moldavam seus corpos no gramado soterrado, criando formas que lembravam anjos, outras preparavam seu arsenal de bolinhas, para a guerra que aconteceria mais tarde. Todas pareciam muito felizes, aproveitando a chegada da época de natal.

Já estava bastante afastado das construções do orfanato. Um alivio correu pelo meu corpo, como se eu tivesse a chance de começar tudo outra vez. Foi quando encarei a grande lápide, com as palavras do fundador, localizada próxima a entrada.

— “...os transformamos em esperança”. — Soltei um riso abafado. — Até parece...

Pela primeira vez na vida, me senti livre.


Dez anos mais tarde, eu ainda apreciava a fumaça quente do cigarro. Sentado em um banco na calçada, eu admirava as luzes da cidade que nunca dorme enquanto tragava um Lucky Strike atrás do outro. Já estava ficando impaciente, esperando a resposta de meu informante.

Aguardei por alguns minutos, até que escutei o barulho de um bipe agudo, do meu celular, indicando que havia recebido uma mensagem. Na tela havia uma foto, um senhor de idade, com cabelos grisalhos e olhos verdes, por trás de óculos de armação quadrada. Alem da imagem, o arquivo continha informações detalhadas do sujeito, inclusive sua ficha de atuações irregulares em diversos cassinos da cidade.

Frederick Weis, psicólogo. Pelo que estava escrito, alem de escutar problemas pessoais durante horas, em seu consultório, o velho ainda tinha uma paixão por jogos de azar. Segundo registros de meu cliente, Frederick estaria contando cartas no jogo de Black Jack, acumulando pequenas riquezas às custas do cassino.

Irônico...

Enquanto olhava para a foto de meu próximo alvo, lembrava de outra pessoa com o mesmo nome. Frederick Westshire, fundador do lugar que jurei esquecer para sempre.