Unhold
— Ele faleceu hoje de madrugada, meu jovem. Sinto muito... passamos a manhã toda tentando descobrir a causa da morte. Parece que seu coração simplesmente parou de bater, provavelmente o peso da idade, ele estava doente, afinal de contas.
Talvez devesse ter me sentido triste. Mas não sabia ao certo a definição de tristeza, ou morte. O que eu tinha certeza, entretanto, era que nem a idade, nem a doença, tinham tirado a vida de George.
Ali, naquele momento, com o jovem medico ao meu lado, ajoelhado em frente a cama, que pude reparar em sua chama. Era um azul vivo, forte, um fogo quase tão intenso quanto o das crianças que vi brincando mais cedo. Percebi o que ela representava, o quão importante era mantê-la acesa. Pra mim, esse era o significado de vida e morte.
Ontem a noite, ainda deitado na neve, foi quando vi a primeira chama de vida. Flutuando sobre a cabeça de meu carregador, ela brilhava tão forte quanto a do Dr. Taylor. Me perguntava como, mais tarde no mesmo dia, ela estaria tão fraca.
— Ele não deveria ter morrido tão cedo. — Falei. O medico ainda olhava pra baixo, encenando um falso choro.
— Eu sei, meu jovem... — Ele me encarou. Seus olhos deveriam estar vermelhos de chorar, mas ele pouco demonstrava lágrimas ou sinais de emoção. — Nem sempre o mundo é justo. Ele salvou uma vida, em troca, sacrificou a própria.
Sacrificou. Pensei.
— Não, eu digo... ele realmente não deveria ter morrido. — Minha expressão era incrédula. Como se eu esperasse mais dos médicos. — Sua chama estava... saudável. Como a sua.
O medico me encarou por um tempo. Ele parecia estar cansado de estar ali, sua expressão sorridente havia desaparecido e ele estava impaciente.
— Não entendi, rapaz. Provavelmente está sofrendo alucinações por conta do cansaço e da amnésia, tendo uma visão distorcida da realidade. Isso acontece em casos mais graves de traumatismo. — Ele botou a mão sobre minha testa, medindo a temperatura. — O problema, é que você não aparenta ter sofrido nenhum impacto na cabeça. Alem disso, está congelando! Vou pedir para alguém lhe servir algo quente para comer e traga mais cobertores. Deixe-me fechar essa jane...
Um vento forte entrou no quarto. O jardim congelado de Westshire não parecia tão convidativo a noite, estava tudo escuro, senão pelos poucos postes de luz que iluminavam a estrada. Levei a mão a boca e tossi forte algumas vezes quando a brisa gelada passou por mim. A mão do Dr. Taylor desencostou de minha testa, pude vê-la tremer, como se o medico tivesse um calafrio.
Foi só quando ele se apressou para recolher seus equipamentos usados nos exames, se despedir brevemente e encaminhar-se pela porta, que pude perceber o quanto a forma de sua chama havia deformado. O fogo, que há pouco brilhava intensamente, havia perdido parte de sua vitalidade.
Foi a partir daquele dia, em que Jacob Taylor saiu apressado da enfermaria, que eu soube, de alguma forma, que não era como os outros. Eu só não imaginava o quanto isso seria ruim.
Nos dias em que me recuperava, as enfermeiras me serviam com relutância. As visitas do medico se tornavam menos freqüentes, até que ele parou de vir. Se houvesse algo de errado com minha memória, poderia esquecer, não contava mais com os exames do renomado hospital em Newport.
A vista da janela me parecia uma realidade distante. A neve começara a derreter e dava lugar às primeiras folhas das árvores. Estava começando a me sentir solitário, salvo alguns olhares curiosos de crianças que passavam pela enfermaria, antes da rancorosa Sra. Thompson chamar suas atenções em meio a berros e “tapas corretivos”. Não gostava muito do seu jeito autoritário ou do modo como ela me olhava atravessado. Ao contrario do primeiro dia, que ela procurou me atender com todo o cuidado, ela parecia achar minha presença no orfanato uma ameaça.
Quando a primavera chegou, já quase não tinha ataduras pelo corpo. Estava me sentindo bem e saudável. Minhas refeições já não eram sopas, comia o mesmo que as outras crianças no refeitório. Mesmo não tendo contato com mais ninguém, estava ansioso para finalmente poder deixar a cama e, talvez, conhecer pessoas da minha idade, poder desfrutar da mesma felicidade que os garotos e garotas que brincavam pelo jardim.
Felicidade... hoje em dia eu penso o quanto era ingênuo. Não creio que uma vez sequer, pude descobrir o verdadeiro significado dessa palavra. Assim como entender a morte já foi um desafio para mim, o conceito de “felicidade” sempre me escapou. Tantas as vezes que corri atrás dele.
Estava eu, a um dia de receber alta e finalmente poder me entreter com outras crianças. Olhava pela janela e as via brincar, uma tentava pegar a outra, muitas corriam, caíam e riam juntas. Me perguntava se deixariam me juntar a elas. Era obrigado a fazer leves alongamentos todos os dias, mas não sabia se minhas pernas seriam capazes de agüentar uma corrida, amarelinha ou guerrinha de bolas de neve.
Esperava que as enfermeiras trouxessem minha refeição da tarde, ao invés disso, elas carregavam algo diferente. Seguravam, uma de cada lado, uma maca de pano branco, com hastes de madeira. Sobre ela deitava, encolhido, um menino magricela.
Pobre Takeshi Yoshida. O rapaz oriental tinha cabelos muito lisos cobrindo-lhe o rosto, óculos de armação folgada, caídos sobre a maca. Seus olhos estavam muito fechados, seus punhos, cerrados, tremiam. Estava com uma aparência pálida.
Logo atrás da enfermeira, estava Sra. Thompson, seu olhar era de extrema preocupação.
— Hannah. — Chamou a atenção a uma das enfermeiras. Sua voz saía arranhada, devido ao forte sotaque. — Ligue para o médico, precisamos que ele venha imediatamente.
— Ele está ardendo em febre, senhora. — Disse a outra jovem, seu rosto gordinho não mais demonstrava um sorriso, mas estava em lagrimas de desespero.
— Acalme-se Julia, tenho certeza que daremos um jeito...
— Não adianta. — Disse, meus olhos sem qualquer emoção. Todas as três se viraram para mim.
— Me desculpe? — A senhora corpulenta parecia enfurecida. — Como tem a audácia de falar isso?
— Sua chama... — Observei o garoto sobre a maca. — Ele não deve durar muito tempo.
— Já chega com essa história de chama! — Sra. Thompson erguia os punhos, nervosa. Seu rosto estava vermelho, tomado pela fúria. — Não existe nada, repito, NADA que flutue acima de nossas cabeças!
Achei que tomaria um murro igual as crianças que, eventualmente, quebravam algum objeto dentro do prédio, ou saíam escondidas de seus quartos a noite. Mas uma das enfermeiras isse algo que acabou interrompendo o golpe ainda no ar.
— Senhora, estou em contato com a esposa do Dr. Taylor. — Disse Hannah. Sua expressão era de preocupação. — Ela disse que ele adoeceu há algumas semanas e ainda não melhorou. Não temos outro medico na cidade capaz de atender o Takeshi.
Mas já era tarde. Enquanto elas conversavam, eu observava a fina chama extinguir-se acima da cabeça do garoto. O azul brilhava fraco enquanto ia diminuindo, como uma vela gasta cujo fogo já não tem o que queimar.
Por fim, o brilho cessou. Os punhos de Takeshi cederam, fazendo com que suas mãos se abrissem e seus antebraços parassem de se contrair. Eu deveria ter ficado quieto enquanto elas discutiam, mas não tinha ciência do que era medir palavras, nem o quão depressivo a morte representava.
— Tarde demais. — Foi tudo que consegui dizer antes do grito abafado de Julia, a enfermeira rechonchuda , que abraçava a cabeça do garoto enquanto chorava.
— ISSO É TUDO CULPA SUA! — Os olhos da Sra. Thompson também se enchiam de lágrimas. — O medico adoeceu em sua presença... agora esse jovem perdeu, tão cedo, sua vida. Não duvido que o pobre George também tenha morrido por sua causa!
A outra enfermeira tentou segurá-la. Ela dizia que a senhora estava atordoada com a morte e que eu não tinha culpa. Me defendeu, dizendo que eu não conseguia entender, que não tive contato com ninguém fora do espaço da enfermaria e...
— Está enganada! Me solte Hannah! — Gritava, enquanto tentava se livrar dos braços da jovem. — Ele é o culpado! Er ist unhold!
E surgiu. A primeira palavra usada para se dirigir a mim. Farto de me chamarem de criança, rapaz, garoto, jovem... me perguntava se um dia me batizariam com um nome de verdade, como fizeram com grande parte dos órfãos. O que quer que unhold significasse, tinha certeza de que não era nada bom.
Ainda hoje posso escutar os gritos da Sra. Thompson, me encarando com ódio, ecoando em meus pensamentos:
— Du bist unhold! Du bist UNHOLD! — Ela dizia.