Infância
Terminei de fumar meu cigarro enquanto olhava o corpo do pobre psicólogo, encolhido no chão. Caída ao seu lado, estava a prancheta de anotações, que ele tanto olhava durante a consulta. Virei meu pescoço de modo a conseguir ler o que estava escrito. Haviam diversos rascunhos com contas matemáticas, pequenos desenhos, modelos de jogos de cartas e horários de funcionamento de cassinos. No topo da página lia-se:
Sistema de contagem Knock-Out
2,3,4,5,6 e 7: +1 na contagem
8,9: 0
10, Valete, Dama, Rei e Às: -1
Sistema KO? Pensei. Dentre os sistemas de contagem do Black Jack, o Knock-Out pode ser considerado o mais fácil de usar. Esse método de “trapacear” no jogo depende de extrema concentração e raciocínios aritméticos rápidos, o que pode ser difícil para certas pessoas, especialmente psicólogos de setenta anos, procurando por uma última aventura.
Segundo tinha lido mais cedo, em meu celular, Frederick Weis foi um dos pioneiros em contagem de cartas dos Estados Unidos. O método foi criado em 1962, pelo Ph. D. em matemática e professor universitário, Edward O. Thorp, e utilizava a técnica de “cinco contagens”, que foi substituída pela de “dez contagens”. Weis já às usava nos meados de 1970, faturando uma considerável barganha, antes de ser banido da maioria dos hotéis-cassino da cidade. Voltando a atuar, para sua infelicidade, há pouco mais de uma semana.
— Me mandaram atrás de um veterano. — Disse baixinho, enquanto depositava a guimba de cigarro em um cinzeiro de pedra, em cima da cantoneira, próxima a cadeira onde antes se sentava o senhor de idade. Antes de sair, reparei em uma última frase, escrita no final da primeira folha presa à prancheta.
Paciente John Schnitter: completamente insano, um idiota.
Soltei um riso abafado. As pessoas não prestam.
Ajeitei a gola de minha camisa e saí do consultório. A sala de espera estava ainda mais quente. Repugnantes papéis de parede verde-musgo me chamaram a atenção, estavam parte mofados, parte descolando das paredes. O piso de madeira era velho e rangia a medida que dava passos. Atrás do balcão estava uma jovem atendente, com cabelos encaracolados e um problema sério de acne. Ela me seguia com os olhos enquanto eu atravessava o lugar, sua expressão era de desdém, como qualquer adolescente irresponsável que trabalhava contra a vontade.
Eu olhava para os poucos clientes sentados no sofá, cujas almofadas estavam desbotadas, com um tom vinho-cinzento, em que antes deveria ser vermelho. Cumprimentei uma senhora, de cabelos tingidos e um chapéu rosa berrante, ao sair.
Já dentro do elevador, fiquei me perguntando quanto tempo levaria até a chamada do próximo cliente. Imaginava os gritos de horror da pobre jovem, ao ver o cadáver do idoso, estirado no chão. A cena me era engraçada.
O dia estava escurecendo enquanto eu passava pela movimentada avenida. A cidade estava cheia de turistas nessa época do ano, limusines cruzavam as ruas a cada poucos carros que passavam, anúncios de espetáculos e shows com nomes importantes, como Celine Dion, Elton John ou Cher bombardeavam os olhares. Passei por imigrantes, batendo cartões, com anúncios de prostituição. Uma tentativa de emprego na “terra da oportunidade” que chamavam de America.
Odiava sempre sentir frio, mas odiava ainda mais a cidade no verão. Eram raras as ocasiões que sentia calor, geralmente nas situações em que me encontrava e em uma posição desconfortável, ou na estação mais quente do ano, em uma cidade localizada em plena área desértica. Para alguém acostumado com o corpo gélido, a mudança brusca de temperatura me atingia com um baque. Sentia meu corpo mole, mal conseguia raciocinar, até mesmo enxergar a chama azul e ofuscante acima das milhares de pessoas caminhando, me causava tonturas.
Apertei os passos para chegar mais rápido em meus aposentos, tomando cuidado para não esbarrar em nenhum pedestre no caminho. Estava começando a cruzar a rua, quando meu celular começou a tocar. Com um fone de Bluetooth em meus ouvidos, cliquei para receber a ligação.
— Você esqueceu de me informar, cara. — Falou a voz do outro lado da linha. Sua pronúncia era rebuscada, mas eu já me acostumara com o seu sotaque indiano. — Cheguei até a deixar um recado na sua secretária eletrônica!
— Informar o que? Missão concluída? — Falei, com uma voz debochada. — Não sou nenhum agente britânico, Taz.
— O.K — Disse, tentando parecer sério. — Só pra confirmar... Frederick Weis está morto, certo?
— Sim, assim como você estará, em... alguns meses, eu acho.
— Ah... cara! Não brinque com isso! — Sua voz ficou assustada. — Não é sério, é? Quer dizer, da última vez que você me viu, disse que eu estava com todo o gás. Se eu morrer, a culpa é sua!
— Não, era brincadeira mesmo, pode ficar tranqüilo. — Consegui escutar o seu suspiro de alivio, o que me fez rir. — Não é como se eu pudesse te “apagar” pelo telefone.
— Espero, mesmo, que não! Vou desligar agora, Schnitter. Tente descansar, o dia será longo amanhã. — O som do outro lado ficou mudo.
Iri Abishtek foi uma das primeiras pessoas que conheci no trabalho. Gênio da matemática e computação, usou de sua inteligência para ganhar a vida do jeito fácil: através do crime. Aos dezesseis anos já havia cometido delitos em mais de dez estados americanos, suas atuações variavam de invasão e clonagem de contas bancárias até falsos seqüestros, por telefone.
Como hacker, de codinome “Taz”, não existe nenhuma informação pessoal que ele não consiga acessar. Desde coisas simples, como endereços ou números de celular, à transações secretas de grandes quantias de dinheiro. Há pouco mais de cinco anos, o indiano foi finalmente preso , no Texas, refugiando-se em uma propriedade particular, em Austin. Taz havia conseguido acesso à todos os códigos de segurança da casa, onde fingiu ser o dono, que viajava a negócios, por aproximadamente um mês. Autoridades locais só o acharam por causa de suspeitas de vizinhos. Iri não é do tipo discreto, e organizava festas e eventos no local, freqüentemente.
Foi retirado da prisão, cobrindo menos de um terço da pena, quando a companhia para quem trabalho viu em seu talento uma oportunidade, e lhe ofereceu um emprego. Em um semestre prestando serviços, Taz acumulou mais dinheiro do que em anos de roubo. O que fazíamos, entretanto, era muito diferente de simples invasões de propriedade.
Já era noite quando cheguei em casa. Passei pelo lobby de entrada, parando somente para cumprimentar o velho Jack, atrás do balcão da portaria.
— Chegou algum pacote hoje, Daniel’s? — Um apelido digno dos apreciadores de um bom whisky, em horário de serviço.
— Nada por hoje, Sr. Walker. — O senhor de idade deixava transparecer um sorriso. Sentia pena ao ver o pequeno fogo tremeluzindo os poucos anos que lhe restavam.
— Obrigado, tenha uma boa noite. — Fiz uma pausa, como se estivesse esquecendo de algo. — Faça-me o favor de comunicar o serviço de quarto que me entregue mais maços de Lucky Strike, estou ficando sem.
— Pode deixar, senhor, considere-o feito!
— E... Jack. — Virei para ele, enquanto me dirigia aos elevadores. — Tome a liberdade de pegar uma das melhores garrafas da casa, na minha conta, é claro.
Uma cortesia para o tempo que lhe resta de vida. Pensei. O senhor de idade me agradeceu com uma expressão sincera.
Enquanto esperava a chegada do elevador, senti uma sensação estranha, como se ali, naquele imenso salão, houvesse alguém me observando. Corri os olhos por toda a extensão da área de repouso. Várias pessoas estavam sentadas em sofás confortáveis, lendo as noticias enquanto tomavam uma xícara café expresso. Algumas famílias, recém-chegadas ao hotel, faziam o check-in na recepção, onde atendentes carismáticas acertavam o pagamento e lhes indicavam as informações sobre a cidade e seus principais pontos turísticos.
Escutei o aviso de que o elevador chegara. Não pude deixar de notar o figurão parado no meio do lobby, chamando a atenção. Usava um chapéu bege, no estilo gangster, que combinava com seu sobretudo de marca caríssima. Usava grandes óculos escuros, cobrindo-lhe o rosto, apesar de estar de noite. A sua volta, várias mulheres lindas aglomeravam-se, o que dificultava visualizá-lo.
Ele seguia em minha direção, falando alto e rindo para as belas moças. Consideravelmente mais altas que ele, eu diria que eram modelos de algum pais da Europa. Tinham, em sua maioria, cabelos loiros, esvoaçantes, peles pálidas e corpos magérrimos, esculturais. O sujeito gritou para que segurasse o elevador, quando percebeu que já estava partindo.
Fiquei agradecido quando o magnata incômodo finalmente se retirou, dois andares antes. Olhava fixamente para o painel numérico, esperando que indicasse a chegada ao último andar. Foi então que senti um aperto no peito, uma imagem que demorei para perceber. Aquele homem... não possuía chama?
Devo estar cansado. Pensei. Não é possível, estou delirando, com o calor, com o trabalho, com tudo. Mas a dúvida percorria a minha cabeça, tentei visualizar a cena em minha mente. Lembro-me muito bem de ter visto cinco chamas flutuantes, um para cada mulher a sua volta, impedindo que eu o encarasse. Talvez uma delas estivesse bloqueando a minha visão.
Foi só quando desisti e fui procurar, em meus bolsos, as chaves do quarto, que apalpei algo não familiar. Segurei-o em minhas mãos, era um pedaço de papel dobrado, envelhecido. Confuso, sem saber como ele foi parar em meus bolsos, o desdobrei.
Era uma fotografia antiga, em tons de sépia, sem borda e com falhas esbranquiçadas, causadas pelo desgaste natural. Um garoto, de cabelos escuros, brincava sorridente com um desses carrinhos de brinquedo. Atrás dele estava uma grande colina, uma casa de aspecto rústico no topo e, mais adiante, uma extensa floresta de pinheiros. A paisagem me era estranhamente familiar.
Espere um pouco... esse sou eu.