Morte
O interessante é que no período em que estivera com saúde mais precária foi também o único que me lembro ser aceito por outras pessoas. Um vento fresco entrava no quarto através da janela recém aberta. O céu estava claro, sem nenhuma nuvem. Fazia sol do lado de fora, o que contrastava com a neve, que cobria os extensos gramados de Westshire. Eu era servido por uma moça gordinha, com olhos claros e um grande sorriso. A sopa estava quente, seu sabor suave foi a primeira sensação boa que tive desde que acordei.
Ainda estava cansado, sentia dores por todo o corpo. Ataduras pediam em volta do meu tronco, meus braços e perna. O senhor que me achou e trouxe até o orfanato acompanhou-me na primeira noite. Ele prendia seus cabelos longos e castanhos por um rabo de cavalo. Seus olhos carregavam marcas de noites mal-dormidas e sua pele possuía leves manchas de queimaduras de sol. Era um homem enorme, mas de poucas palavras, sua voz saía grave e pausadamente, como se não estivesse acostumado a conversar com crianças.
— Tudo vai ficar bem, garoto. — Disse, dando tosses de constrangimento. — Meu nome é George...George Hickman, eu moro em um rancho próximo a estrada, não é muito longe daqui.
— Sua chama... ela queimava intensamente. — Não sabia se ele poderia me escutar, eu mesmo não reconhecia o som de minha própria voz. Minha garganta doía quando tentava falar. — O que... aconteceu com ela?
— Eu não acho que estou entendendo, jovem. — Ele me olhava, incrédulo. Seu olhar era de pena. — Pobre criança, deve estar alucinando. Tente descansar um pouco.
O senhor levantava-se para se retirar. Ainda era de madrugada quando acordei e não queria ficar sozinho. Minha mão fraca tentou segurar seu braço, mas ele apenas se virou para mim e sugeriu que tentasse dormir um pouco. Eu o acompanhava com os olhos enquanto ele saía do quarto. Sr. Hickman prometeu voltar pela manhã, para saber como eu estava.
Já era de tarde. Demorei tanto para terminar a sopa, que ela estava fria quando dei as últimas colheradas. Coloquei o prato sobre a mesa de canto e inclinei minha cabeça para olhar pela janela. Haviam crianças brincando no jardim, todas pareciam felizes, atirando projeteis de neve umas às outras. Imaginei como seria me divertir assim. Tentei pensar em diversas coisas, mas tudo era um vazio: o que estou fazendo aqui? Quem são essas pessoas? Quem...sou eu?
— Qual o seu nome, jovem? — A voz me pegou de surpresa. Eu reclamava baixinho, de dor, enquanto virava o corpo para identificar quem estava falando.
Era um homem alto e jovem, tinha cabelos negros, cortados no estilo militar. Ele me encarava com um sorriso no rosto. Ao contrario do Sr. Hickman, aposto que ele tinha mais experiência com pessoas da minha idade. Trajava-se com um comprido avental branco. Carregava em uma das mãos uma pequena maleta de alumínio, uma cruz vermelha, adesivada, destacava-se nas laterais.
— Fiquei sabendo que foi encontrado ontem a noite, no frio. Pobrezinho... essa cidade está tendo muitas tragédias nos últimos dias, especialmente ontem a noite. — Sua expressão não parecia demonstrar tanta emoção quanto suas palavras. — Sou o Dr. Taylor, mas pode me chamar de Jacob. Diga-me criança, qual o seu nome?
— Eu não sei.
— Como assim não sabe? Está me dizendo que esqueceu o próprio nome? — Ele me examinava com os olhos enquanto chegava mais perto da cama.
— Sim.
— E sobre como foi parar naquele lugar? — Já ao lado da cama, ele procurava alguma coisa dentro da maleta. — Consegue se lembrar disso?
— Não consigo me lembrar de nada.
Suas mãos seguravam um pequeno objeto de metal. Ele o levou até perto de meus olhos, pediu para os manter bem abertos, e então só enxergava uma luz forte.
— Deve estar com uma grave amnésia, não posso saber imediatamente. — Ele me dizia enquanto desligava a luz da lanterna e a guardava novamente na caixa. — Gostaria de começar alguns testes. Tem sentido dores de cabeça? Tontura?
Passaram-se algumas horas desde que o medico começou a me examinar. Ele retirou todas as minhas ataduras, as verificou rapidamente e trocou-as por novas. Disse algo sobre o bom trabalho das enfermeiras do orfanato e de que iria ficar tudo bem.
Depois de mais alguns pratos de sopa, já não me sentia tão fraco quanto pela manhã. O dia estava escurecendo, um alarme mecânico ensurdecedor tocou por cerca de dez segundos, alertando as últimas crianças que brincavam na neve para que retornassem aos dormitórios. Enquanto isso, eu esperava por algum sinal do Sr. Hickman. Por mais estranho que seja, com seu jeito fechado, ele me parecia o único que realmente se importava comigo.
O doutor ainda estava no quarto, sentado em uma das camas enquanto falava no telefone. Quando finalmente desligou, colocou o aparelho sobre o gancho e seguiu em minha direção.
— Já está na hora de partir, rapaz. Mas tenho certeza que receberá todos os cuidados aqui. Seus ferimentos, no geral, foram superficiais. Os hematomas devem desinchar em alguns dias. — Ele parou, me observando por um tempo. — Assim que estiver com forças, gostaria de levá-lo ao hospital que trabalho, em Newport, para realizarmos alguns testes. Sua perda de memória é algo que me preocupa.
— Você sabe onde está o senhor que me trouxe aqui ontem a noite? — Consegui dizer, antes que ele partisse. — Ele era alto, usava um rabo de cavalo. Gostaria de agradecer o que fez por mim...
O medico me lançou um olhar triste e se agachou ao meu lado, repousando os braços sobre a cama. De alguma forma, já sabia o que ele iria dizer.
— George Hickman... — O jovem medico começou a dizer. — Ele faleceu hoje de madrugada, meu jovem.