Westshire
Tenho a lembrança clara de quando tomei ciência de que era diferente. Não somente porque foi algo marcante em minha infância, mas por ser uma de minhas primeiras lembranças.
Não consigo recordar-me de nada anterior aos meus doze anos de idade. Foi quando penso ter tido meu primeiro contato com as pessoas, quando ganhei um... nome, uma identidade na qual poderia abraçar minha existência. Não sei em que mês exatamente, mas lembro-me do frio cortante, das roupas rasgadas e dos ferimentos que tinha quando entrei pela primeira vez nos grandes salões de Westshire.
Sendo a maior construção de uma pequena cidade na Nova Inglaterra, o orfanato recebia enormes contribuições de instituições privadas para manter-se ativo. A concentração de crianças de lá se equiparava ao numero de alunos de importantes escolas nas grandes Metrópoles. Tenho certeza que cheguei lá no inverno, os telhados antigos, edificados com grandes toras de madeira, estavam quase inteiramente cobertos de neve. Lembro de ter sido carregado por cerca de meia hora até avistar os portões de ferro do lugar, sentia meu corpo fraco, mal conseguia enxergar. Se soubesse ler, teria identificado as palavras da grande lápide de mármore sobre o jardim congelado:
Um lugar onde coletamos sonhos perdidos e os transformamos em esperança.
Frederic Westshire (1815-1882)
Fiquei impressionado com o resplendor do grande salão principal, forcei a visão, que estava turva, para tentar identificar as formas dentro do elegante lugar. O chão era coberto por uma enorme tapeçaria azul marinho, redondas pilastras de uma pedra escura e bem polida sustentavam o teto, onde dependurava-se um lustre de prata, que julguei ser antiguíssimo. Sentia fortes braços envolvendo meu corpo enquanto passávamos pela porta de altura excepcional, outra pessoa andava ao nosso lado, desferindo palavras que não conseguia entender. Minhas pálpebras foram ficando pesadas. Meu corpo, exausto, lutava para manter-se acordado, com medo de não tornar a se mover, caso adormecesse. Podia sentir o balançar enquanto era carregado escada acima, o giro em espiral e o espaço mal iluminado começaram a me enjoar.
Gemi de dor quando os braços que me seguravam apertaram-me na subida, achava que tinha alguns ossos quebrados. Foi quando pensei que iria finalmente desmaiar, que escuto uma voz aflita vinda de cima, nos últimos degraus. Parecia feminina, mas era carregada de um forte sotaque, o que tornava difícil de compreender. Mas acho que disse algo assim:
— O que está acontecendo aí embaixo a essa hora? — Sua voz saía arranhada e seu tom era arrogante, como se estivesse no comando. — Porque as luzes do salão principal estão acesas?
O homem que me segurava bufava enquanto subia os últimos degraus, seu passo estava mais pesado. O sujeito que escutara há pouco tempo, no salão, nos seguia a passos rápidos, sua voz soava vacilante:
— S...senhora Thompson. — Seu tom era preocupante. — Desculpe-nos incomodá-la em horário tão tardio, mas...
Pela interrupção, julguei que havíamos chegado de encontro a mulher em questão, escutei um grito abafado e forcei abrir os olhos para vê-la. Era uma senhora pálida e corpulenta, trajava-se com uma longa camisola de dormir. Uma chama azul flutuava, tremeluzindo acima de sua cabeça e iluminando levemente seus cabelos loiros, presos por um coque.
— Meu Deus! — Exclamou. Seus dedos apontavam diretamente para mim. — O que aconteceu com esse jovem?
— O achei caído na neve, próximo a estrada. Seu estado é grave, minha senhora. — O som vinha de cima. O sujeito que me carregava falava com uma voz grave e pesada. Parecia me dar um leve apertão toda vez que dizia uma palavra, suas mãos tremiam.
— Mas porque o trouxeste aqui? Perdeu o juízo? Esse garoto precisa de atendimento medico, urgente!
— T...tenta...ten...tamos minha senhora. — A voz era mais aguda, do sujeito que nos acompanhava. Não sei se era por causa do nervosismo, mas ele travava constantemente ao falar. — O medico viajou hoje cedo para Newport e só retorna pela manhã.
— Pois bem, levem-no imediatamente para a enfermaria! AGORA! — Seu grito arranhado foi tão ensurdecedor que pensei ter ficado alerta por um instante. Estávamos em um longo corredor, um tapete comprido estendia-se por todo o andar, que era iluminado por lâmpadas fracas, presas às paredes. O senhor que me carregava murmurou algo e começamos a nos afastar da Sra. Thompson.
A última imagem que tive foi de ser carregado corredor adentro. Passei por várias portas, identificadas com suas respectivas numerações, como em quartos de hotel. Minha visão foi ficando mais borrada, a passarela começou a se distorcer. Já não escutava o barulho dos passos, ou sentia dor, mas estava com frio, muito frio.
Por fim, tudo ficou escuro.